Oi, menine! Tá boa, santa?

Ao som do hino sindical Solidariedade Para Sempre (Solidarity Forever), escrito por Ralph Chaplin, em 1915, a abertura do filme Pride – Orgulho e Esperança (Pride – 2014) dá o tom da narrativa – emocionante e inspiradora – que vemos ser contada. Pois é, cem anos após ser idealizada, uma canção de 1915 foi utilizada como trilha em um filme de 2014, para contar uma história de 1984. Confusão de datas, né, minha filha… Mas é isso, na coluna deste mês, vamos observar que entre avanços e retrocessos, a união contra um inimigo comum é possível, porém, estamos longe de alcançá-la.

The union makes us Strong

Fatos reais estimularam o escritor Stephen Beresford e o produtor David Livingstone a criarem um enredo envolvente sobre a união de ativistas gays e lésbicas com os mineiros grevistas, no Reino Unido, durante a greve de 1984-85. À época, Margaret Thatcher, do Partido Conservador, era a primeira-ministra britânica e defensora do liberalismo econômico. A “dama de ferro”, como ficou conhecida, era uma ferrenha apoiadora do desmantelamento dos sindicados e do fechamento das minas estatais de carvão, o que deixaria milhares de trabalhadores desempregados e acabaria com comunidades inteiras. Em 1984, para lutar contra o Thatcherismo e garantir a sobrevivência de suas famílias, o Sindicato Nacional dos Mineiros deflagrou a greve – que viria a ser conhecida como a mais longa da história britânica.
É aí, sob a liderança do militante Mark Ashton (Ben Schnetzer), que aparece a organização Lésbicas e Gays Apoiam os Mineiros [Lesbians and Gays Support the Miners (LGSM)], que passou a arrecadar dinheiro com o objetivo de somar esforços e fortalecer a luta contra as opressões do sistema capitalista. Mark justifica a iniciativa com a solidariedade, ressaltando o porquê a união entre gays, lésbicas e os mineiros seria fundamental: “Quem odeia os mineiros? Thatcher? Quem mais? A polícia, o público, a imprensa. Soa familiar?” Bom, mais de 35 anos depois, isso ainda soa familiar, sobretudo para a população LGBTI+, não é? Aqui no Brasil, a fala é extremamente atual se trocarmos Thatcher por Paulo Guedes, por exemplo.

Pride conseguiu a proeza de ser aquele filme perfeito que quase ninguém conhece, ganhando status de cult. Contudo, está longe de se enquadrar no estereótipo do que é um filme cult, rótulo que, muitas vezes, mais afasta que aproxima uma obra do grande público. Apesar de um contexto histórico denso, com perseguição a trabalhadores, homofobia e o aparecimento do HIV/Aids, o diretor Matthew Warchus transmite a mensagem com leveza. Foi assim que, entre inúmeros prêmios e premiações, Pride foi indicado ao Globo de Ouro (2015) como melhor filme de comédia ou musical; ganhou o Queer Palm do Festival de Cannes (2014); e deu o prêmio de melhor estreia por um escritor, diretor ou produtor britânico para Stephen Beresford e David Livingstone no British Academy Film Awards (BAFTA – 2015). Quem quiser conferir a lista toda, pode clicar aqui.
O longa é esteticamente lindo, colorido, tem humor – do jeitinho que os britânicos adoram, e eu amo –, a trilha sonora é uma gracinha e os personagens são carismáticos. Triste pensar que essa obra maravilhosa tenha passado despercebida no Brasil e no mundo. Apesar de um certo burburinho no Reino Unido e nos EUA quando foi lançado, o alcance de Pride está longe de fazer jus à sua relevância, que está apoiada na recuperação de um fato histórico e, principalmente, na demonstração de caminhos possíveis para que a luta das minorias políticas possa avançar.

“Não querem nosso dinheiro porque somos maricas, preferem morrer de fome”

No começo, esse feat. entre mineiros e homossexuais foi repleto de atritos. De um lado, alguns gays não conseguiam entender o porquê ajudarem um grupo de pessoas que era majoritariamente homofóbico – apesar de sermos surpreendidos com um dos mineiros se revelando gay, mas não vou contar quem! De outro, por mais que estivessem passando por perrengues, os mineiros tinham vergonha de associar a sua luta com a causa Gay – aqui o foco está em Gays e Lésbicas, assim como em Pride. Nos anos 1980, o movimento LGBTI+ ainda era em grande medida denominado como um movimento Gay. O próprio filme apresenta apenas personagens homossexuais e cisgêneros. Há a presença de drag queens e pessoas trans/travestis, mas de maneira muito isolada. Uma crítica negativa está na representação de duas mulheres trans/travestis (não é possível compreender ao certo dada a pequena participação), personagens que garantem certo apelo cômico. O fragmento pode ser um reflexo da década de 1980, contudo, em um filme produzido em 2014 poderia ter ficado de fora ou, então, apresentado de maneira mais respeitosa.
Aos poucos, a aliança entre os gays e as lésbicas de Londres e os mineiros de Dulais Valley, ao sul do País de Gales, vai se fortalecendo. Importante frisar que a LGSM foi a organização que mais arrecadou fundos para os mineiros durante a greve, conseguindo adquirir até um micro-ônibus, já que o utilizado pelos trabalhadores havia sido destruído pela polícia por ordem do governo de Thatcher. Uma vez que a imprensa estava alinhada com o governo, os jornais utilizaram o termo “pervertidos” para divulgar a parceria da LGSM com os grevistas. Assim, em Pride podemos ver a materialização de uma circunstância que atravessa a vida de muitos LGBTI+, que é a apropriação de ofensas, as quais passam a ser incorporadas com orgulho. Dessa forma, a LGSM, após o ataque da imprensa produziu o evento “Pits and Perverts” (Minas – aqui temos o duplo sentido entre minas de carvão e garotas – e Pervertidos), um show beneficente que, devido ao enorme sucesso, foi responsável por uma grande arrecadação de doações.
É por meio do choque entre dois grupos com diferentes vivências e subjetividades que Pride, em pouco menos de duas horas, nos permite refletir sobre a construção dos preconceitos pelas instituições capitalistas e heteronormativas. Há um completo interesse das instituições dominantes – Estado, Igreja e sistema capitalista – em manter a classe trabalhadora alienada e ignorante em relação às questões de gênero e de orientação sexual, pois, como Pride nos mostra, quando os preconceitos são destruídos conseguimos enxergar e atacar o inimigo em comum.

A classe trabalhadora é também LGBTI+, e os LGBTIs+ também são classe trabalhadora, ou seja, subverter a lógica da heterossexualidade, tida como a forma correta de vivenciar a sexualidade e a identidade em sociedade, é também um dos caminhos para a emancipação social. A grande lição de Pride pode ser resumida em uma palavra, que está na moda atualmente entre acadêmicos e movimentos sociais, mas ainda pouco colocada em prática: intersecção. Por isso, a luta contra o inimigo comum às minorias políticas precisa ser atravessada pela intersecção entre marcadores sociais de diferença – gênero, sexualidade, classe, cor/raça, idade/geração, entre outros – uma vez que no cerne de todas as opressões conseguimos chegar a uma matriz comum, o capitalismo.
Assim, com a greve encerrada, subvertendo a lógica da imprensa e do governo, em 29 de junho de 1985, a Marcha do Orgulho Gay, em Londres, foi liderada por mineiros galeses como agradecimento pelo suporte do LGSM durante a paralisação. Um ano após o término da greve, uma moção foi entregue em uma conferência do Partido Trabalhista para incluir os direitos gays no manifesto do partido. Embora tenha sido recusada antes, dessa vez ela fora aprovada. Isso foi devido, em parte, a uma votação unânime, da aprovação de um grupo chave: o Sindicato Nacional dos Mineiros. Termino por aqui, arrepiado e emocionado, assim como fiquei nas vezes em que assisti Pride. Em tempos obscuros, parece utópico pensarmos na possibilidade de unirmos todas as lutas, sobretudo no Brasil atual, porém, precisamos manter a chama da esperança sempre acesa. E eu espero que esse filme inflame a sua esperança, assim como inflamou a minha.

Trabalhadores do mundo e pervertidos, uni-vos!

Trailer:

Disponível para comprar e alugar no YouTube, Google Play e sites de compartilhamento, dá uma jogada no Google!

Pride: Orgulho e esperança – Ficha Técnica
Direção: Matthew Warchus
Drama/comédia
120 minutos
2014
Reino Unido/França

Guilherme Popolin

Guilherme Popolin

Colunista - Coluna Você quer close?

Guilherme Popolin era uma criança viada e hoje é um homem gay, jornalista e doutorando em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Fã de cultura pop desde sempre, aqui vai escrever sobre cultura LGBTI+, cinema e música.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional do Coletivo Movimento Construção – Parada LGBTI+ de Londrina. 

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