Oi, menine! Tá boa, santa?

Começar qualquer coisa traz sempre um sentimento esquisito dentro da gente. Uma ansiedade, misturada com empolgação, com doses de questionamento sobre como fazer, o que escrever e, no caso dessa coluna, que nome dar. Então, começo explicando o nome da minha coluna, aqui no site da Parada LGBTI+ de Londrina: Você quer close?

A proposta é utilizar este espaço para conversarmos sobre cultura LGBTI+, sobretudo, sobre cinema e música. Dessa forma, o título Você quer close? surgiu naturalmente, uma vez que close, além de ser uma expressão muito popular entre a comunidade LGBTI+, diz respeito ao enquadramento fechado utilizado em obras audiovisuais. Da mesma forma que o close significa uma grande aproximação da câmara em relação ao objeto ou personagem, aqui na coluna pretendo esmiuçar detalhes e explorar produtos culturais que, em alguma medida, dialogam com as alegrias e as dores da comunidade LGBTI+. Por fim, mas não menos importante, o nome da coluna faz uma homenagem à artista e ícone da cena londrinense Ariel Trippy, dona da canção Close.

Agora, comecemos nosso papo sobre o tema deste mês, o documentário brasileiro: Dzi Croquettes. A escolha da obra dos diretores Tatiana Issa e Raphael Alvarez, de 2009, para iniciar os trabalhos por aqui não foi um acaso, visto que a mesma recupera e nos conta a história de um dos grupos mais vanguardistas e irreverentes que existiu no Brasil, o Dzi Croquettes. Não é à toa que o documentário é o mais premiado do país – incluindo Grande Prêmio do Cinema Brasileiro (voto popular e do júri, em 2011), TORINO Int’l Glbt Film Festival (2010), Festival do Rio (voto popular e do júri, 2009), Mostra Internacional de São Paulo (2009) e Festival Mix Brasil Internacional (2009) – já que, por meio de imagens de arquivo e depoimentos, os diretores conseguiram transportar para as telas toda a potência de um grupo que surgiu há quase 50 anos, cujo legado impactou a cultura e quebrou paradigmas.

O Dzi Croquettes nasceu no Rio de Janeiro, em 1972, em plena ditadura civil-militar, pós AI-5, ou seja, no auge da repressão, censura e privação de direitos. E é assim que o documentário começa, alternando imagens assombrosas do período ditatorial com imagens do grupo durante performances ou se maquiando. A subversão que a trupe traria ao cenário artístico brasileiro deu o primeiro indício já na escolha do nome. Dzi Croquettes é inspirado em um grupo de Nova Iorque, The Crocketts, mas com um toque brasileiro, já que os integrantes definiram o nome enquanto comiam croquetes em um bar carioca: “croquetes feitos de carne”. Abrasileiraram também o The para Dzi. Assim, entre altos e baixos, durante a existência do grupo, um bando de viados – como eram vistos pelos militares – foi responsável por revolucionar o cenário artístico brasileiro. São eles:

Wagner Ribeiro de Souza (Silly, a Mãe)
Lennie Dale (o Pai)
Cláudio Gaya (a Claudete)
Cláudio Tovar (a Clô)
Ciro Barcelos (a Silinha)
Reginaldo di Poly (a Rainha)
Bayard Tonelli (a Bacia Atlântica)
Rogério di Poly (a Pata)
Paulo Bacellar (Paulette, a Letinha)
Benedictus Lacerda (a Old City London)
Carlinhos Machado (a Lotinha)
Eloy Simões (a Eloína)
Roberto de Rodrigues (a Tia Rose)

Como a diretora Tatiana Issa conta em uma entrevista para o Canal Brasil, até a produção do documentário pouco se lembrava ou se sabia sobre o Dzi Croquettes, acredito que um reflexo do apagamento de nossa memória, sobretudo por envolver um grupo de pessoas marginalizadas e estigmatizadas em um período em que “ninguém podia pensar, ser diferente e se expressar”, como comenta o cantor Ney Matogrosso, um dos entrevistados do filme. Marília Pera, Norma Bengell, Maria Zilda Bethlem, Nelson Motta, Aderbal Freire Filho, Elke Maravilha, César Camargo Mariano e Geraldo Carneiro são alguns dos entrevistados que trazem à tona memórias dos anos de chumbo, recriando o cenário social e político no qual o Dzi Croquettes se formou. Depoimentos preciosos e muito necessários atualmente!

“Eles não estavam nenhum pouco engajados com política institucional, mas é claro que era político, qualquer ato é político. Havia uma revolução de comportamento, liberação sexual, de valores morais com relação a masculinidade e feminilidade que eles são o grande grito”

José Possi Neto

Diretor de Teatro e Figurinista

“Nem homem, nem mulher. Gente!”

Em tempos de pós-modernidade e identitarismos, um dos lemas do grupo “nem homem, nem mulher. Gente. Just like You!” pode soar estranho aos ouvidos dos mais desconstruídos, haja vista que atualmente muita gente isentona ou conservadora ama soltar um “somos todos humanos” para deslegitimar a luta LGBTI+. Contudo, nos anos 1970, sob o risco eminente de censura e de repressão, tal posicionamento era tão potente quanto a luta armada. Era assim que o criador do grupo Wagner Ribeiro pensava, para ele “só o amor constroi”, como bem relembra emocionado o ex-Dzi Croquettes Benedictus Lacerda.

O ator Pedro Cardoso, quem acompanhou a trajetória do grupo, realça a “possibilidade absoluta do exercício da sexualidade”, uma vez que o Dzi Croquettes era formado por homens que se travestiam, mas não eram travestis. Usavam cílios postiços, mas não se depilavam. Eram viris, mas executavam graciosamente as coreografias. A barba e o brilho dividiam o mesmo rosto. Os corpos dos integrantes carregavam no palco a dualidade entre os universos masculino e feminino, subvertendo a lógica capitalista heteronormativa do que é ser homem e do que é ser mulher. A linguagem do cabaré era traduzida por meio de elementos do carnaval carioca. A androgenia e a genialidade eram tamanhas que a censura mal conseguia enquadrá-los, uma vez que para os censores, a nudez era o principal elemento a ser reprimido. Mas olha, a menor ameaça ali ao “cis-tema” era a nudez, pois uma ideia é impossível de ser censurada. E quantas ideias os Dzi Croquettes cravaram na mentalidade e no imaginário daqueles que assistiram aos espetáculos…

A família

Assim como muitas pessoas LGBTI+ vivenciam, e, recentemente, a série Pose (FX) passou a mostrar com maestria, os integrantes do Dzi Croquettes também se reconheciam como uma família. Não uma família formada pela união de laços sanguíneos, mas formada pela união de pessoas que se amam, se respeitam e se apoiam verdadeiramente. Ao assistir o documentário é possível compreender essa dinâmica, em que, além do espetáculo para o público, o enredo da família funcionava como uma história interna. Wagner Ribeiro, o criador do grupo, era a mãe. Havia também o pai, as filhas, as sobrinhas e as tias. Tanto no Rio de Janeiro como na temporada em São Paulo, todos moravam na mesma casa, espaço onde prevalecia o amor livre, a liberdade sexual e experiências alucinógenas.

As Internacionais

Nos 110 minutos de filme podemos conhecer um pouco mais sobre cada integrante e viajar com eles pelo Rio de Janeiro, São Paulo, Lisboa e Paris. A viagem à Europa foi também uma forma de exílio, mas em grande estilo, pois cruzaram o Atlântico com cerca de duas toneladas de bagagens – leia-se figurinos – sem nenhum espetáculo agendado ou um produtor. Só assistindo para mergulhar nas histórias, nos perrengues e nas curiosidades da temporada europeia, porém, já adianto que nossas divas queer tupiniquins caíram nas graças de Liza Minnelli – considerada a madrinha do grupo – e de Josephine Baker – foi no lugar dela, após sua morte, que o grupo ficou em cartaz no Teatro Bobino, em Paris. Omar Sharif, Catherine Deneuve e Mick Jagger eram alguns dos nomes na plateia. Sentiu o poder?

O Dzi Croquettes certamente chegariam a Londres e à Broadway em Nova Iorque, mas, por conta de um desvio de percurso, voltaram ao Brasil e passaram a morar em uma fazenda na Bahia. A partir daí tudo degringolou: brigas, drogas e o “câncer gay” – como o HIV e a Aids ficaram conhecidos nas décadas de 1980 e 1990 – deram uma rasteira na ascensão meteórica do grupo.

O legado

De fato, o impacto na cultura brasileira foi gigante. A girlband As Frenéticas foi resultado de uma experimentação para a montagem de uma versão do Dzi Croquttes com atrizes – Dzi Croquettas. Toda vez que cantamos “abra suas asas, solte suas feras” estamos enaltecendo um pouquinho do legado dos Dzi. O besteirol brasileiro de Regina Casé, Cláudia Raia, Débora Bloch, Guilherme Karan e Luiz Fernando Guimarães bebeu muito do humor dos Dzi Croquettes, pois para Miguel Falabella o espetáculo dos Dzi era como “aula de comédia”. A gíria “tiete” para se referir a fãs e admiradores nasceu com eles e com Duse Naccarati, quem conta a história no filme e lembra que hoje a expressão está até no dicionário Aurélio.

Entre memórias, risadas e lágrimas, o principal trunfo do documentário é recuperar a trajetória esquecida e apagada de nossa história – os vídeos da época foram encontrados apenas no arquivo de uma TV alemã. É fundamental que as minorias políticas conheçam e perpetuem suas histórias também como uma estratégia de luta. E a história do movimento LGBTI+ no Brasil tem como peça fundamental o Dzi Croquettes, uma vez que um “bando de viados”, em plena ditadura, ousou confrontar os padrões e destruir convenções de gênero. O legado construído pelos Dzi é para encher de orgulho, de admiração e de força a todes que lutam por um mundo igualitário – e cheio de brilho – como finaliza a narração da diretora Tatiana Issa, quem conviveu com o grupo quando era criança porque seu pai, Américo Issa, fazia parte da produção: “Hoje eu olho para traz e vejo como eles foram importantes, esquecidos, celebrados, geniais. Mas, para mim, eles vão ser para sempre aqueles palhacinhos, de enormes cílios postiços, mas com uma ingenuidade quase infantil. De menino. Meu pai sempre me dizia, bicha não morre, filha, vira purpurina.”

E vamos de links, pois acredito que todes estão sedentos para assistir esse clássico, uma verdadeira aula para o movimento LGBTI+ do Brasil e do mundo. O documentário pode ser encontrado no YouTube, em sites de compartilhamento (via torrent) e no Canal Brasil Play.

Dzi Croquettes

Direção: Tatiana Issa & Raphael Alvarez
Documentário
110 minutos
2009
Brasil

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Guilherme Popolin

Guilherme Popolin

Colunista - Coluna Você quer close?

Guilherme Popolin era uma criança viada e hoje é um homem gay, jornalista e doutorando em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Fã de cultura pop desde sempre, aqui vai escrever sobre cultura LGBTI+, cinema e música.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional do Coletivo Movimento Construção - Parada LGBTI+ de Londrina. 

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