O que eu mais recebo inbox é pergunta do tipo:

  • Como anunciar “vaga para trans”?
  • Como faço para atrair “trans” para o meu processo seletivo?
  • Eu tô com uma vaga aqui e queria que ela fosse para uma pessoa trans, como faço?

Com o boom da comunidade LGBTI+ e as empresas parecem que as pessoas que esquecem de alguns detalhes que vamos lembrar nesse texto:

  1. Você NÃO pode anunciar uma vaga SÓ para trans.
  2. Ok, você contratou uma pessoa trans e aí?

Vamos conversar um pouquinho sobre cada um desses pontos nesse texto.

Vamos lá!

Você NÃO pode anunciar vagas só para Trans

A gente tem uma lei (brasileira – não sei como é em outros países) que diz que NINGUÉM pode ser discriminado em um processo seletivo, isso começa desde o anúncio da sua oportunidade até a pós entrevista (sim, pois se uma pessoa trans é discriminada saindo da entrevista, após uma conversa com seu recrutador, de quem é a culpa?).

Abrindo parênteses – para quem quiser saber detalhes de leis, compilei algumas abaixo:

  • A CLT, no artigo 373-A, I, veda a publicação de anúncio de emprego em jornal no qual haja referência ao sexo, à idade, à cor ou situação familiar, exceto quando a natureza da atividade a ser exercida, exija de maneira inquestionável.
  • A Lei n. 9.029 de 1995 também proíbe a exigência de atestados de gravidez e esterilização, além de vetar outras práticas discriminatórias, para efeitos admissionais ou de permanência da relação jurídica de trabalho, impedindo que sejam adotadas práticas discriminatórias ou que restrinjam o acesso ao emprego ou à sua manutenção.
  • Além disso, só será permitido estabelecer critérios tão específicos, tais como idade, sexo, origem, desde que esses se justifiquem de forma pública e notória.

Essas referências nas leis foram retiradas nesse artigo e nesse aqui também – esse inclusive tem exemplos de anúncios discriminatórios.

Fechando parênteses, logo…

Quem nunca leu por aí um anúncio de vaga assim:

Vaga para homem, XXX idade e blablablá.
Não importa se esse homem é trans ou não.
Só aí já temos erro de anúncio de que gênero e especificando a idade.
Se colocar localização, tipo, “mora no bairro XXX”, vish… Só vai piorando!

Então o que a gente faz aqui, em camaleao.co, é:

  • Divulgamos vagas abertas para todes;
  • Divulgamos essa vaga em espaço em que há a comunidade trans;
  • Temos um grupo no Telegram com pessoas LGBT+ que divulgamos as oportunidades assim que elas entram para nós;
  • Assim que recebemos as oportunidades fazemos o match com o nosso banco em que as pessoas se identificam como LGBT+ em um cadastro, na nossa plataforma, a partir de uma autodeclaração – sim, tem campos também para a pessoa não se declarar, caso ela não queira.

Agora, vamos supor que não temos o perfil de determinada oportunidade e a empresa quer fazer um processo de inclusão para pessoas trans, como agir nesse caso?

Novamente, vou dizer o que nós, de camaleao.co, fazemos aqui:

Usamos linguagem neutra de gênero para escrever nossos anúncios – você pode acessar o exato checklist que usamos para escrever as nossas oportunidades aqui

Algumas pessoas trans são ligadas na questão da binaridade de linguagem, logo usar a linguagem neutra de gênero demonstra que você se preocupa e entende o universo daquela pessoa, fazendo com que a atenção dela seja atraída para sua a oportunidade.

Ver essa foto no Instagram

Depois do meu post, recebi essa pergunta: ㅤ - Ok, já entendi que não se usa o X nas palavras, mas sim o E (se quer saber o porquê, vá na minha timeline e procure um post anterior a esse que eu explico essa dúvida). E agora? Pois a escrita parece fácil de assimilar, mas a fala em si? Uma coisa importante é que não estamos debatendo gramática. A linguagem neutra de gênero não vai substituir a gramática. Esse não é o propósito dela. Ela veio para atuar onde tem uma variedade de "jeitos" de se falar: no vocabulário do nosso dia a dia. Pensa comigo: somos uma variante de dialetos, de gírias e de modos de nos comunicar. A linguagem neutra de gênero, novamente, são SUGESTÕES de BOAS PRÁTICAS para quem quer desenvolver uma comunicação inclusiva, ou seja, ela não vai mudar as suas gírias e nem seus dialetos. Você vai adaptá-las, CASO QUEIRA. Eu sei que há uma barreira gigante para o uso da linguagem neutra de gênero na nossa comunicação oral. E isso se deve ao fato de parecer estranho algumas vezes e, claro, o nosso ouvido não está acostumado a nada disso. Então sempre que uma empresa / marca me procura para ensinar COMO começar a ter uma comunicação oral mais inclusiva, recomendo: ㅤ • COMECE POR UMA PALAVRA. Pode ser TODES que está mais popular hoje. Mude todas as suas comunicações para todes. ㅤ Ensine as pessoas o porquê você está usando TODES. Explique o que é linguagem neutra de gênero, o binarismo de gênero na língua portuguesa e o porquê algumas pessoas acham o uso dela estranho - o uso do feminino e do masculino na gramática. Entende... A questão é que além de você estar explicando sobre a linguagem neutra de gênero, você está educando as pessoas para outros conhecimentos que elas não teriam acesso se não tivesse mudando uma única palavra na sua comunicação. Porem... Não dá para mudar toda a forma de comunicar e ficar incomunicável. Não é essa proposta da linguagem neutra de gênero. A questão que estamos falando é de INCLUSÃO e eu não consigo ser inclusivo colocando barreiras para as pessoas entenderem o que eu falo, beleza? Então comece aos poucos! Em breve, trago sugestões de frases que você consegue usar no dia a dia sem estresse. Até lá! ✌

Uma publicação compartilhada por Maira Reis 🏳️‍🌈 LGBT+ (@mairareiss) em 25 de Nov, 2019 às 8:03 PST

  • Anunciamos a vaga normalmente, porém escrevemos no legenda da imagem, no texto que vai na descrição de um post, no anúncio da oportunidade: “vaga com preferência para pessoas trans”.

Quando você usa a palavra “preferência” já diz que é para todes e também para aquela pessoa trans que você está buscando, logo você demonstra uma empatia e que a pessoa trans pode confiar que aquela oportunidade é inclusiva para ela.

Bom, a partir do momento que você abriu oportunidade para uma pessoa eu te pergunto:

  • E a entrevista?
  • Você / tem um time preparado para entrevistá-la pelas suas competências técnicas, quebrando os possíveis vieses de transfobia que podem acontecer?
  • Você sabe como identificá-la no processo seletivo? Como tratá-la? Qual banheiro da sua empresa ela irá usá-la? Como se comunicar de modo inclusivo para aquela pessoa trans?

Eu não estou querendo que você / sua empresa não contrate uma pessoa trans, mas sim que você avalie o quanto o seu time está preparado para receber uma pessoa trans, sabe…

O quando sabe sobre universo trans, pois não adianta nada anunciar uma vaga de modo inclusivo, fazer o processo de seleção, trazer uma pessoa trans para a entrevista e ela sofrer transfobia já na portaria do seu prédio.
Até porque transfobia é crime!
Ok, Contratou Trans e Aí?
Contratar uma pessoa trans talvez seja o processo mais simples, mas o que a gente quer realmente saber é:

  • O quanto a sua empresa está preparada para receber essa pessoa?
  • O quanto a sua empresa está trabalhando com seus líderes e colaboradores para respeitar uma pessoa trans no seu dia a dia?

Entende uma coisa:

Você está contratando uma pessoa que tem vários gapes de vunerabilidades, que já sofreu muito, infelizmente, vários preconceitos por viver em uma sociedade transfóbica. Então uma das suas obrigações enquanto empregador não é impossibilitar que essa pessoa sofra e passe novamente por tudo isso, mas também entenda que é o seu dever construir um espaço inclusivo para todes educando toda a sua empresa para uma verdadeira inclusão e acessibilidade de uma pessoa trans.

Não adianta pregar que a sua empresa é inclusivo se:

  • Você anuncia oportunidade de trabalho querendo um filtro de idade, por exemplo;
  • Também não adianta contratar uma pessoa trans se você tem um ambiente extremamente machista, capacitista, racista e LGBTfóbicos.

Nós, de camaleao.co, podemos ajudá-los não só na questão de empregabilidade trans, mas também sermos parceiros nessa construção desse ambiente inclusivo na sua companhia.

Escreva para a gente para marcamos um call.

Aguardo a sua mensagem.

=)

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Maira Reis

Maira Reis

Colunista - Coluna Maira Reis

Jornalista especializada na comunidade LGBT+ – desde 2012, escrevo, publico matérias / artigos e dou entrevistas sobre as mudanças desse universo colorido no Brasil e no mundo. Em 2019, entrou para a lista de LinkedIn Top Voice por compartilhar seus conteúdos e visões sobre diversidade LGBTI+ na plataforma. Fundadora da startup Camaleao.co que conecta as oportunidades de emprego das empresas com a comunidade LGBTI+. Palestra em empresas sobre o tema desde 2015, tendo mais de 150 apresentações no seu currículo sobre diversidade LGBTI+

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional do Coletivo Movimento Construção – Parada LGBTI+ de Londrina. 

Para sugestões de pautas a redação, envie um e-mail para [email protected]