Eu sei, eu sei, tem horas que algumas pessoas que são aliadas da nossa causa é “muito over”, ou seja, quer fazer de tudo para nos ajudar, quer falar por nós (muitas vezes, dando várias bolas foras) e ainda diz:

Todo mundo humano, né… Esse negócio de preconceito não deveria existir!

Nossa, essa é a hora da gente respirar fundo e entender algumas coisas.
Ter uma pessoa aliada da gente é ter um “time de influenciadores”, dentro das companhias, ao nosso favor.

Essas pessoas são um tipo de ponte entre nós e espaços que não conseguimos adentrar.

De certa forma, demonstram empatia pelo que passamos dia após dia.

E se a gente pensar em uma empresa, pessoas aliadas são aquelas que vão conseguir fazer com que algumas equipes se abram para o nosso universo, discuta a nossa vivência, sendo que isso tudo irá refletir em um possível ambiente inclusivo.

Mas ainda é um longo caminho a se percorrer para que a humanidade seja 100% inclusiva e respeitosa, uma empresa então….

O trabalho, indireto, de um aliado é reconhecer o preconceito no outro, em um ambiente corporativo, principalmente, e tentar rompê-lo a partir de uma conexão e abertura para um diálogo.

O objetivo aqui não é que um aliado no local de trabalho se torne um campeão individual da igualdade, uma pessoa justiceira com as próprias mãos. Mas permitir que as pessoas LGBTI+ saibam que são apoiadas no trabalho e que não estão sozinhas por serem quem são, caso sofram alguma coisa. É ser aquela pessoa que se der alguma coisa errada, você pode contar!
Agora, você, aliado, ou que está construindo um time de pessoas aliadas, precisa ficar atenta / atento para que o tiro não saia pela culatra, ou seja, para que você não passe informações erradas e não destrua preconceito ao mesmo tempo que está construindo estereótipos nas pessoas ao seu redor.

Para isso…

1. Não use a orientação afetiva-sexual e/ou a identidade de gênero do outro para descrevê-lo no trabalho
É provável que você já tenha ouvido falar:

Então, conhece o Ronaldo do setor X, aquele que parece viadinho…
Primeiro, o que tem a ver parecer ou não o Ronaldo ser ou não viadinho com o seu trabalho?
Alguém já te disse:

Conhece a Joana, aquela do setor W, que parece uma heterozinha?
As pessoas são o que são, simples assim.
E o que elas fazem entre 4 paredes e/ou como se identificam perante o mundo NÃO devem ser os seus “sobrenomes” no ambiente de trabalho.

Fora que posso ser gay e não ser necessariamente ser “viadinho” ou ser “ser muito viadinho” – inclusive, isso é uma forma pejorativa de você chamar uma pessoa – e está tudo bem.

E lembre-se:

Nenhum grupo do universo LGBTI+ é composto por pessoas iguais, então vamos parar de dar características a todos, ISSO É DEPRECIATIVO!

2. Ouça como você fala e pensa sobre determinadas pessoas e situações
Um outro ponto que podemos conectar com o item 1 é que….

Todos temos preconceitos, diferentes e, em maiores ou menores graus, mas eles existem dentro de nós e no nosso dia a dia. NÃO é porque você se tornou aliado que virou a pessoa mais mente aberta e sem um pingo de preconceito.
Até eu que escrevo esse texto tenho os meus preconceitos que preciso quebrá-los, oras…

O importante é ficar de olho neles, estar pronto para identificá-los e trabalhar para mudar gradualmente o nosso pensamento.

Ouça a maneira como você se refere as pessoas LGBTI+ e no seu ambiente de trabalho, você está usando nomes ofensivos?
Podem não ser palavras depreciativas, mas podem ter conotações negativas em determinado contexto de frase.

Então trabalhe todos os dias para encontrá-los e quebrá-los.

Ser aliado é reconhecer que você também está em um processo de construção e descontração todos os dias.

3. Não faça perguntas estúpidas – seja para uma pessoa LGBTI+ ou para uma pessoa aliado (e nem você aliado ouse questionar uma / um / ume LGBTI+)

  • “Quando você escolheu ser bissexual?”
  • “Quando você vai parar de sair com homens e se assumir lésbica?
  • Bissexualidade é uma fase?
  • Mas você nasceu menina e virou menino? Quando isso aconteceu?

Seriamente, né…

Quando essas “curiosidades” baterem na sua mente, pergunte a si mesmo se fosse uma pessoa LGBTI+ você gostaria de receber esse tipo de pergunta.
Se você não se importa de fazer essas perguntas, pense em como seria ridículo se alguém se alguém te questionasse no meio da sua empresa:

  • “Quando você decidiu ser hétero?”
  • “Quando você contou para o seu pai que gosta de sair com mulher?
  • “Quando você, homem, se reconheceu como homem?”
  • “Você tem um pênis ou uma vagina?”
  • Se você está convivendo com uma pessoa no seu trabalho que não é muito íntima, você faria essas perguntas sobre suas identidades de gênero e orientações afetivas-sexuais?

Claro que se você tiver uma / um amiga / amigo LGBTI+ íntimo no trabalho e tiver abertura com essa pessoa para perguntar, talvez possa considerar conversar sobre a sua intimidade, né… TALVEZ, BEM TALVEZ!!!

Pois pode ser que nem ela gostaria de falar sobre sua vida com você e isso não te faz nem menos e nem mais amigo dela.

Fora isso, só porque somos “diferentes”, no nosso dia a dia (como nos identificamos perante o mundo e com quem nos relacionamos) de você não é que te demos AUTOMATICAMENTE abertura para expor a nossa vida.
E aí tem o ponto do aliado de não tirar e nem colocar ninguém dentro do armário, sequer expor a intimidade do outro que não lhe diz respeito.

Até porque isso não é o seu papel!!!!

Seu papel é construir espaço de inclusão e não de exposição das pessoas.

Por fim, precisamos lembrar que:

Exija uma cultura de trabalho respeitosa para todos os seus colegas de trabalho.

Logo se sua empresa trabalha em prol da diversidade LGBTI+ ela deve, principalmente treinar, você, aliado, para “interromper” declarações e ações LGBTfóbica, racistas, misógina, capacitista e sexistas – NO MÍNIMO, ela deve fazer isso!

Se você não sentir a vontade para interromper o mau comportamento LGBTfóbico enquanto ele está acontecendo, converse com os participantes depois para lhes contar como se sentiu perante as atitudes deles.

4. Familiarize-se com a Terminologia da Comunidades LGBTI+
Entenda como apoiar seus / suas colegas de trabalho que se assumem no dia a dia.

Pergunte a eles / elas: “Como posso ajudá-lo / ajudá-la?”
Pronto, pergunte e pare. Não fique insistindo na indagação!

Mais do que se colocar a disposição, atualize sobre as nossas terminologias e os desafios de ser LGBTI+ dentro da sua empresa.

Conversa com a sua área de gestão de pessoas para que ela possam fazer uma pesquisa com as pessoas LGBTI+ sobre quais são as perguntas inapropriadas para se fazer a uma pessoas LGBTI+.
E quando estiver conversando com uma pessoa LGBTI+ sobre os seus desafios simplesmente ESCUTE, pois alguém está confiando em você a sua intimidade.

Por fim, se sentir que ficou algum mal estar entre você e uma pessoa LGBTI+, use a palavrinha mágica:

DESCULPAS!

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Maira Reis

Maira Reis

Colunista - Coluna Maira Reis

Jornalista especializada na comunidade LGBT+ – desde 2012, escrevo, publico matérias / artigos e dou entrevistas sobre as mudanças desse universo colorido no Brasil e no mundo. Em 2019, entrou para a lista de LinkedIn Top Voice por compartilhar seus conteúdos e visões sobre diversidade LGBTI+ na plataforma. Fundadora da startup Camaleao.co que conecta as oportunidades de emprego das empresas com a comunidade LGBTI+. Palestra em empresas sobre o tema desde 2015, tendo mais de 150 apresentações no seu currículo sobre diversidade LGBTI+

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional do Coletivo Movimento Construção – Parada LGBTI+ de Londrina. 

Para sugestões de pautas a redação, envie um e-mail para [email protected]