Reprodução: Instagram @MariaCamilaMoura
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Iniciamos este espaço sobre Educação, falando sobre o tema que dá nome à coluna, “Humanizar”. Vivemos tempos difíceis para as minorias, tempos de barbáries dignas de cinema – filme estilo “sangue nas mãos”. São empregados esforços hercúleos para a desumanização dos indivíduos, e diante disso é preciso algumas doses de lucidez, nos chamando atenção sobre a urgente necessidade de (re)humanização da sociedade.
Neste espaço, teremos a oportunidade de pensar, discutir, conversar, refutar e discordar sobre a representatividade da comunidade LGBTQAI+ nos espaços em que se pensa a Educação. Não é preciso de muitos esforços para registrar as inúmeras exclusões que os membros da comunidade LGBTQIA+ sofrem nos espaços escolares. Esse movimento de exclusão ou anulação das diferenças se inicia desde os primeiros anos escolares, e muitas vezes na própria família, estendendo-se para o Ensino Médio e Superior.
Constantemente assistimos, lemos ou ouvimos relatos de abusos, agressões físicas e verbais, cerceamento de direitos, práticas preconceituosas e desqualificação do discurso e do local de fala em razão da sexualidade. Poderíamos passar várias horas elencando casos de indivíduos que já vivenciaram alguma, ou várias, dessas experiências relatadas acima.
Essa manifestação de preconceito se materializa nos espaços escolares por meio da segregação, piadas, brincadeiras, separações dos alunos por gênero nas diversas atividades escolares, através de agressões físicas e verbais, e o cerceamento das vivências nas atividades mais corriqueiras dos alunos, entre outras formas de agressão. Como uma forma de marcar o início de nossas conversas neste espaço, vamos falar de humanização.
Estamos enfrentando uma onda crescente de extremo conservadorismo, com requintes de Fascismo. Aqui faço uma pausa, pois me recordo de uma professora que durante uma de minhas pesquisas acadêmicas questionava quando eu colocava o conservadorismo extremo em uma espécie de aproximação com o Fascismo. Para mim, estão muito próximos. Não há como negar uma espécie de flerte entre os que comungam os ideais destes movimentos.
Esse levante avança de forma paradoxal, uma vez que retrocede em relação às conquistas dos historicamente excluídos. Este cenário permite que percebamos uma tentativa de colocar em extermínio a existência de tudo e todos que ousarem desviar da linha padrão imposto pelos costumes de uma bandeira tradicional-religiosa – um salve para a família tradicional.
Etimologicamente, humanizar é uma palavra que vem do Francês “humanizer”. Esta palavra carrega consigo uma das tarefas mais difíceis para a espécie humana. Humanizar significa atribuir o humano à espécie, ou seja, permitir à espécie humana que efetivamente se constitua como ser humano. Esse processo contribui para que se construa nos indivíduos o caráter civilizado, possibilitando a vida em sociedade e o convívio harmônico.
Na Educação podemos utilizar um dos atuais teóricos que discutem esse processo de humanização dos indivíduos, Saviani (1943). Para o autor, os seres enquanto espécie, precisam aprender a se tornar seres humano, precisam ser humanizados, e isso se dá nas relações e trocas entre os indivíduos. Vygotsky (1896-1934) também chamava a atenção para essa mediação, ou seja, as relações que são estabelecidas entre os indivíduos, o mundo e os conhecimentos historicamente acumulados pela humanidade que permitem o desenvolvimento e a humanização.
Adorno (1903-1969), em seu texto Educação após Auschwitz, contribui com a reflexão sobre o papel da Educação que precisa se constituir como uma das principais formas de luta contra a barbárie, pois humanizar passa pelas possibilidades advindas da Educação. Então, a tarefa da Educação consiste no ato de produzir, direta e intencionalmente a humanidade (SAVIANI). Quanto a humanidade já agiu com crueldade, justificada em pautas de grupos particulares e detentores do poder, para desumanamente tentar extinguir tudo e todos que estivessem fora do que estes grupos julgavam “normal”?
Se pretendemos avançar em uma sociedade onde todos possam viver de forma digna, sendo quem se é, e tendo garantias de vez e voz, independentemente de suas condições, precisamos investir em Educação. Devemos cobrar investimentos concretos em Educação gratuita e de qualidade para todos. A Educação não deve ser moeda de barganha e muito menos estabelecer critérios para o acesso dos indivíduos. A comunidade LGBTQIA+ deve cada vez mais ocupar estes espaços, tanto nos bancos escolares como alunos, como sendo professores, diretores, pesquisadores da Educação e afins;
É preciso pensar em um modelo de Educação que inclua, que respeite, que permita a liberdade do indivíduo, que contribua para as relações e que considere toda forma de diferença como uma possibilidade de ampliar nossa humanidade, pois na troca entre as diferenças é que nos constituímos como humanidade. Garantir essa perspectiva de Educação é considerar a possibilidade de emancipação dos indivíduos e a construção de sujeitos críticos.
Continuaremos falando sobre temas relacionados à Educação e a comunidade LGBTQIA+. Caso desejar encaminhar questionamentos, temas, dúvidas, críticas, elogios, sugestões e afins, escreva para [email protected]
Fascismo não é ideia, muito menos opinião para ser respeitada.
Rodrigo Cavallarin.
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Rodrigo Cavallarin
Colunista - Coluna Humanizar
Mestrando em Educação, possui especialização em Recursos Humanos, Gestão Escolar, Educação Infantil e Psicopedagogia. Graduado em Administração e Pedagogia. Já atuou como Educador Social junto ao serviço de proteção à crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade e atualmente atua no Ensino Superior.
As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional do Coletivo Movimento Construção – Parada LGBTI+ de Londrina.