A leitura é uma ação humana libertadora. Ler, por mais que possa ser uma atividade realizada de forma plural, passa por uma experiência individual de transformação de do indivíduo que lê. Pela leitura os indivíduos ressignificam sua existência, evocam sentimentos, experiências, sensações, histórias, pessoas, lugares, aromas, sabores. É um ato político e social, uma vez que permite a tomada de posicionamento, reflexão da realidade, análise social, direcionamento pessoal e coletivo, entre outras tantas possibilidades de mudança.

Pensando no que escrever nesta quinzena aqui na coluna, recordei que em diversos momentos tive contato com livros infanto-juvenis que abordavam temas ligados à comunidade LGBTQIA+. É sempre um assunto que causa polêmica, por vezes inflama grupos conservadores, mas que não devem deixar, de forma alguma, de fazer parte do acervo literário de adultos que compreendem seu papel enquanto partícipes de uma luta contra a construção do preconceito (sim, preconceito é construído).

Pois bem, quero apresentar para vocês um destes livros que tenho em minha biblioteca pessoal. É um livro de gigante delicadeza na escrita, nos detalhes das ilustrações, na condução da história e que apresenta em seu desfecho uma infinidade de discussões possíveis dentro das pautas LGBTQIA+. O livro se chama “O Menino Perfeito” (2017) da editora LM – Livros da Matriz, a obra foi escrita e ilustrada por Bernat Cormand (filólogo e ilustrador. É mestre em Literatura Comparada pela Universidade Autônoma de Barcelona). No Brasil a obra contou com a tradução de Dani Gutfreund (é editora e estuda o livro ilustrado. É especialista em traduções e mestre em Literatura Contemporânea Inglesa).

O livro traz a figura de Daniel, um menino como outro qualquer. Levanta todos os dias, possui sua rotina junto aos afazeres da casa. Desde seu acordar ao fim do dia está sempre disposto para auxiliar sua mãe em suas atividades em casa. Daniel passeia com seu cachorro, faz os deveres de casa, tem aulas de piano. E na escola? Ah, na escola Daniel se destaca pela atenção aos estudos e comportamento exemplar. Não há o que dizer de Daniel, pois ele é o menino perfeito. Mas Daniel possui um segredo!

Daniel me parece ser o que muitos LGBTQIA+ são ao longo de sua infância, adolescência e por vezes até mesmo quando adultos. São pessoas exemplares, perfeitas. O vizinho perfeito que carrega as compras para a senhorinha do apartamento ao lado, a moça simpática da mercearia que escolhe os melhores pães para os clientes, aquele garoto ou garota que na escola é elogiado nos conselhos de classe e que todo professor utiliza como exemplo quando querem apelar para a dedicação e compromisso da turma, “Vejam classe, fulano-fulana já fez a atividade… Vejam classe, fulano-fulana está o tempo todo em silêncio prestando atenção…”.

Enquanto mantemos nossos segredos, somos perfeitos. Somos filhos perfeitos, sobrinhos, primos, netos perfeitos. Somos os funcionários perfeitos, os maridos e esposas perfeitos. Muitas vezes, quando conseguimos esconder nossos segredos, chegamos a ser pais e mães perfeitos. Ainda que não mudássemos em nada nossos comportamentos e atitudes, nossas condutas cotidianas, bastaria que soubessem nosso segredo para que toda a imagem de perfeição que as pessoas possuem de nós fosse destruída.

Voltando para o Daniel e o livro, o garoto passa praticamente o livro todo com a mesma expressão facial, nunca sorri – e aqui as ilustrações nos dizem muito, é preciso delicadeza para ler as ilustrações. Quantos de nós né? Muitas crianças, ou mesmo nós adultos não se surpreenderiam ao ler o final do livro, quando chegássemos ao segredo iríamos perceber que a arte imita sim a vida. Daniel, assim como muitos de nós, somos exemplo. Nos comportamos bem, fazemos tudo o que nos mandam para não decepcionar ninguém. Somos dedicados a tudo o que nos cabe fazer, assim são os dias e a vida de Daniel.

O mais esperado dessa história da vida de Daniel, o seu segredo, é apresentado no final do livro. O segredo é revelado à noite, quando Daniel está só em seu quarto, longe de tudo e de todos. Longe dos olhares que cotidianamente o aprovam, mas que diante de seu segredo certamente o reprovariam. “Ninguém podia imaginar que Daniel tinha um segredo. À noite, quando não o viam…”.

Continuaremos falando sobre temas relacionados à Educação e a comunidade LGBTQIA+. Para encaminhar questionamentos, temas, dúvidas, críticas, elogios, sugestões e afins, escreva para [email protected]
Fascismo não é ideia, muito menos opinião para ser respeitada.
Rodrigo Cavallarin

Rodrigo Cavallarin

Rodrigo Cavallarin

Colunista - Coluna Humanizar

Mestrando em Educação, possui especialização em Recursos Humanos, Gestão Escolar, Educação Infantil e Psicopedagogia. Graduado em Administração e Pedagogia. Já atuou como Educador Social junto ao serviço de proteção à crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade e atualmente atua no Ensino Superior.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional do Coletivo Movimento Construção – Parada LGBTI+ de Londrina. 

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