Vamos abrir o nosso álbum de família, o livro da nossa história de vida e ver como tudo começou?
Família é algo que não podemos escolher, a gente nasce e ela já está feita. Convido você a pensar a sua família como um caldeirão. O que é um caldeirão? É um grande tacho metálico para aquecer a água ou cozinhar algo. O tacho já está feito quando nascemos, tacho permeado de expectativas. Ou seja, muito antes de uma criança vir ao mundo, ela já está marcada por uma série de projeções e idealizações dos pais.
Andrew Solomon, é o autor do livro: Longe da árvore – pais, filhos e a busca da identidade. É um livro fantástico inspirado em sua própria experiência de vida (ele foi diagnosticado com dislexia na infância, o que foi bem recebido e aceito pelos pais, e mais tarde se assumiu homossexual, o que foi mais difícil em seu ambiente familiar), Andrew Solomon escreveu este livro após anos de pesquisa e entrevistas sobre crianças que “caíram longe da árvore” das mais variadas maneiras, ou seja, crianças que tinham características ou condições que não eram compartilhadas pelos pais e como isso se refletia na dinâmica familiar. É um livro que fala sobre a tolerância e a valorização da diversidade dentro das famílias. Estudando e pesquisando ele percebeu que as famílias infelizes que rejeitam os seus filhos diferentes têm muito em comum, ao passo que as felizes que se esforçam para aceitá-los são felizes de uma infinidade de maneiras. O psicanalista D.W. Winnicott disse certa vez: “Não existe bebê – no sentido de que quem se propõe a descrever um bebê vai descobrir que está descrevendo um bebê e alguém mais. Um bebê não pode existir, mas é essencialmente parte de uma relação. ” Na medida em que os filhos se parecem com os pais, eles são os seus admiradores mais preciosos, e, na medida em que são diferentes, podem causar grandes conflitos nessa relação.
Vejo que existe um momento dentro das famílias onde as expectativas e as idealizações são postas na mesa, e por isso, se chocam: a realidade de que os filhos são sujeitos pensantes e independentes, e não apenas uma extensão dos pais, e de que as suas atitudes, preferências e desejos nem sempre corresponderão às ideias e aos ideais preconcebidos por eles. Cada um tem à sua maneira única de colorir o universo! É por isso, que dizemos que cada subjetividade é a sua maneira singular de ser no mundo, e assim, merece ser respeitada. Quando falamos de sexualidade e gênero dentro das famílias, percebo o quanto precisa ser falado, informado, esclarecido, para que os tabus sejam quebrados, as gavetas sejam abertas, os armários sejam desfeitos e os conceitos distorcidos sejam apagados: há muito trabalho a ser realizado e não podemos desistir dessa luta! É fato: existe uma fantasia em alguns lares ditos como “tradicionais brasileiros” que utilizam como defesa uma certa cegueira emocional: eu não quero ver, eu não quero falar, eu finjo que isso não existe. Defesa que vem sendo construída por vozes cobertas de intolerâncias, preconceitos, medos e com uma parcela alta de uma influência religiosa que cria o que é certo e errado sobre os seres humanos. Tudo pode ser transformado e o amor sempre poderá vencer ódio. Talvez uma das suas maiores missões dentro da sua família seja trazer a cor que eles desconhecem: a cor que falta neles, existe em você!
Desejo um mundo onde as famílias possam se amar mais e se julgar menos, onde o respeito pelas diferenças seja uma prioridade e que as famílias saiam dos seus armários: armários que sufocam. Desejo liberdade dentro das famílias: a liberdade de todos os membros serem o que desejam ser.

“Nossos pais são metáforas de nós mesmos: lutamos pela aceitação deles como uma forma deslocada de luta para aceitar a nós mesmos. ”

Jorge Matheus Simões

Jorge Matheus Simões

Colunista - Coluna JM

Formado em Psicologia pela Faculdade Pitágoras, faz especialização em Ensino de Sociologia pela UEL – Universidade Estadual de Londrina.  Trabalha como psicólogo clínico atendendo adultos, casais e famílias. Colunista, escritor e pesquisador em temas que envolvem a sexualidade humana e a população LGBTQI+.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional do Coletivo Movimento Construção – Parada LGBTI+ de Londrina. 

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