Nascida no Rio de Janeiro, RJ, em 7 de dezembro de 1964, Roberta Gambine Moreira era a caçula de três irmãos. Vinda de família de classe média do bairro carioca de Fétima, Roberta se descobriu transgênero no início da adolescência, tendo que enfrentar o preconceito de toda sua família quando decidiu assumir publicamente sua identidade de gênero, pois sempre se reconheceu como uma pessoa do gênero feminino, e desde então passou a possuir uma expressão de gênero feminina. Por vergonha, seu pai falava aos amigos que aquela mulher em sua residência era sua empregada, e não sua filha.

Tudo contribuiu para que a jovem se tornasse independente ainda cedo. Decidiu sair de casa aos 14 anos de idade e foi viver com a avó, pois estava cansada de sofrer agressões e preconceitos dos pais. Como sempre quis ser famosa, sua beleza chamativa, de uma morena de olhos negros com 1,80 m, que chamava muita atenção por onde passava e de forma natural, a ajudaram a conseguir emprego como modelo em uma de suas primeiras tentativas de enviar o currículo para agências. O fato de ter sido registrada como sexo masculino ao nascer não impediu dela desfilar, visto que sua beleza era muito forte e não haviam traços masculinos no seu corpo, relata Roberta. Ela desbancou todas as outras candidatas e conseguiu participar do desfile. Após um tempo, logo recebeu convites para atuar como apresentadora. Voltou a estudar e, fazendo faculdade de teatro e música, conseguiu muito sucesso nas carreiras de atriz e cantora. O sucesso chegou cedo e no fim da adolescência já morava sozinha e viajava pelo mundo. Em 1981, ganhou o título de Miss Brasil Gay.

Em 1984, Roberta Close foi a vedete do carnaval carioca. Foi a partir dessa época que se sucederam as inúmeras aparições na imprensa, pode-se dizer que o auge do sucesso aconteceu quando a revista Playboy a estampou na capa de sua edição de maio de 1984. Pela primeira vez na história do periódico, a principal atração não era uma mulher cisgênero, mas sim uma mulher transgênero. A chamada da capa da revista era: “Incrível. As fotos revelam porque Roberta Close confunde tanta gente”. No entanto, a revista não revelou a genitália da modelo. Foi também capa das revistas Ele & Ela (setembro de 1984), Manchete, Sexy, Amiga e Contigo e da revista Close, de onde saiu seu nome artístico. O sucesso que Roberta fez foi tal que chegou a inspirar uma revista em quadrinhos eróticos na qual a personagem principal era uma travesti muito bonita. Nas décadas de 1980 e 1990, Roberta apareceu nos maiores programas de entrevista da mídia brasileira: Fantástico, Domingão do Faustão, Hebe Camargo, Gugu, Goulart de Andrade, entre outros. Em março de 1990, na edição Nº 176 da Playboy, que trazia Luma de Oliveira como modelo de capa, Roberta Close apareceu pela primeira vez completamente nua, mostrando o seu corpo após a cirurgia. Esta edição bateu recordes de venda, pois além de trazer Luma de Oliveira e Roberta Close, trouxe também fotos da então iniciante Pamela Anderson.

Em 1989, após estar há alguns anos em consultas com psiquiatras e psicólogos, conseguiu realizar seu grande sonho: Fazer a cirurgia de redesignação sexual. A cirurgia foi realizada em Londres, com ajuda de amigos, pois era muito cara e a artista não possuía o dinheiro todo. A operação foi muito bem sucedida e lhe trouxe realização pessoal e novas projeções profissionais. Roberta informou em entrevistas ter tido uma recuperação tranquila e sem dor. Em entrevistas, Roberta negou ser somente uma transexual, afirmando ser também uma intersexual, ou seja, que não só trocou do sexo masculino para o feminino, e que a cirurgia feita não foi somente para uma mudança de sexo, mas sim também uma readequação do seu psicológico com seu físico, pois segundo a artista, sempre teve um pensamento e uma personalidade feminina, e que nasceu hermafrodita, tanto que ao fazer exames de DNA, comprovaram que, mesmo quando possuía um órgão genital masculino, também nasceu biologicamente com características hormonais mistas de homem e mulher, tanto que sempre possuiu voz leve e poucos pelos, pois havia pouca testosterona em seu organismo, o que facilitou sua mudança de gênero, o que é um caso raro na medicina. Após a cirurgia de mudança de gênero, ficou com o corpo mais parecido ao de uma mulher cis.

Apesar de ser uma mulher, sofria por todos seus documentos pessoais ainda constarem seu nome masculino. Logo após a cirurgia, começou sua luta pelo direito de trocar de nome em 1990, mas seu pedido foi imediatamente negado, a deixando muito abalada e triste. Voltou a tentar mudar o nome em 1992, quando conseguiu na 8ª Vara de Família do Rio autorização para trocar de documentos, pedido que lhe foi negado em 2ª instância pelo TJ-RJ. Em 1997, a defesa da modelo então entrou com outra ação, pedindo o reconhecimento de suas características físicas femininas. Roberta então passou por uma perícia com nove médicos especialistas, e os laudos comprovaram que ela possuía aspectos hormonais femininos.

A defesa também argumentou que Roberta não poderia viver psicologicamente bem com um nome que não desejasse e que a levasse a ser vítima de gozações e preconceito, além de que era direito íntimo dela mudar de nome. Sua defesa também mostrou cópias de casos de pessoas trans que conseguiram mudar de nome na justiça. Ao todo eram 37 casos até então no país, sendo que 36 eram do estado de São Paulo. Após décadas de batalha judicial, somente em 10 de março de 2005, quinze anos depois de sua primeira tentativa legal, Roberta Close conseguiu, finalmente, ter garantido o direito de mudar seu nome de registro para Roberta Gambine Moreira. Uma nova certidão de nascimento foi então emitida pelo cartório da 4ª Circunscrição do Rio de Janeiro. Nela, lavrou-se: “em 7 de dezembro de 1964, que uma criança do sexo feminino, nascida na Beneficência Portuguesa, recebeu o nome de Roberta Gambine Moreira”. Essa certidão garante a modelo a retirada no Brasil de documentos, como carteira de identidade, titulo de eleitor, CNH, CPF e passaporte, como sendo do sexo feminino.

Na sentença da 9ª Vara de Família, baseada nos pareceres de especialistas médicos, a juíza escreveu que “o progresso da ciência deve ser acompanhado pelo direito, pois o homem cria, aplica e se sujeita à norma jurídica, da mais antiquada e obsoleta à mais avançada e visionária”. Apesar de tal decisão representar uma mudança significativa para a vida da modelo, o jornal Último Segundo revelou logo após o julgamento que Roberta Close, embora feliz, ainda temia uma nova mudança na decisão judicial futuramente.
Na década de 90, Roberta Close começou a namorar o empresário europeu Roland Granacher, com quem se casou em 1993. Logo, decidiu ir morar na Suíça com seu marido, abandonando sua carreira no Brasil. Assim, se afastou dos holofotes, mas por onde ia gerava repercussão.

Hoje, com 55 anos, ainda é alvo de preconceitos, mas se mostra feliz com a vida que tem. Veio ao Brasil ano passado, 2019, e pousou com sua sobrinha, que é sua cara. Além disso, ainda participou de programas, deu entrevistas e veio para o lançamento do livro Transgêneros, de Tereza Vieira.

Mark Sales

Mark Sales

Colunista - Coluna LGBTs da História

Estudante de Sociologia pela Universidade Paulista. Ativista LGBTI+. Membro do Coletivo Movimento Construção.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional do Coletivo Movimento Construção – Parada LGBTI+ de Londrina. 

Mais de LGBTs da história

LGBTs da História: Mario de Andrade

LGBTs da História: Mario de Andrade

Mário Raul Morais de Andrade, autor do romance “Macunaíma”: o poeta e prosador foi o intelectual que sedimentou as ideias revolucionárias da Semana de Arte Moderna de 1922 e contribuiu para mudar a linguagem da literatura brasileira. Poeta, escritor, crítico...

LGBTs da História: João W. Nery

LGBTs da História: João W. Nery

Filho de um aviador e de uma professora do primário, João Nery, nasceu em 1950, na cidade do Rio de Janeiro, sendo o terceiro entre quatro filhos. Teve uma infância triste, pois vivia sendo hostilizados pelos colegas no parquinho e na escola. Segundo sua biografia, o...

LGBTs da história: Felipa de Souza

LGBTs da história: Felipa de Souza

Nascida em 1556 na Tavira, Portugal, filha de Fulana Gonçalves e Manoel de Souza, Filipa de Souza viajou junto com a antiga capitania lusitana da Bahia para Salvador, logo após ter ficado viúva. Alfabetizada, fato extraordinário em uma época onde a maioria das...

Mais colunas

Habemus farofa – e das boas!

Habemus farofa – e das boas!

Oi, menine! Tá boa, santa? Depois de um longo e tenebroso inverno no deserto da música pop contemporânea, fomos todas, todos e todes contemplados com farofa da melhor qualidade. Em tempos de pandemia e isolamento social, Lady Gaga com o seu Chromatica reafirma o poder...

Negro? Candomblecista? Na escola NÃO.

Negro? Candomblecista? Na escola NÃO.

Nessa última semana, em diversos países pelo mundo, as pessoas se mobilizaram em protestos diante dos crimes de racismo e discriminação cometidos contra os negros, em especial no caso de George Floyd. Ele, afro-americano, morreu em 25 de maio de 2020, vítima do Estado...

Leia mais

Brasil registrou 124 assassinatos de transgêneros em 2019

Em 2019, pelo menos 124 pessoas transgênero, entre homens e mulheres transexuais, transmasculinos e travestis, foram assassinadas no Brasil, em contextos de transfobia. Os dados estão no relatório da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) divulgado no...

Para sugestões de pautas a redação, envie um e-mail para [email protected]