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Na última postagem da coluna apresentei a história do João, que pode ser conferida aqui!. E através dessa vivência fictícia questionei quem conhecia os vários João que estão vivendo e sobrevivendo a diversos rótulos e padrões. Seja pela sua cor, raça, peso e suas inúmeras características que define sua subjetividade diante uma sociedade preconceituosa.
Pensamos então nesse personagem homossexual, preto, gordo, com deficiência visual e morador da favela. Aqui temos reflexões não apenas desse sujeito, mas, de muitos que passam por situações parecidas, e que lentamente vão morrendo, deixando de viver seus desejos, e encontrando formas de suprir tanta dor causada pelos julgamentos do outro.
Notamos que tudo se inicia em seus primeiros contatos sociais, na escola ainda quando criança já era vítima de bullying pela sua aparência física, pele, seus óculos e comportamentos vistos como femininos. Aqui questiono em que momento dividimos a sociedade em comportamentos dito masculino, e outros como feminino. Assim como a questão da divisão das brincadeiras e cores para cada gênero, que inclusive já comentei por aqui no post Orgulhe-se de quem você é. Meninos não podem chorar, enquanto isso, as meninas precisam ser sensíveis, caso contrário, surgem questionamentos a respeito de sua sexualidade. Quantas crianças LGBTQIAP+ não passaram por situações constrangedoras nas escolas, seja pelos seus colegas de sala, ou até mesmo pelos seus professores. Na educação física meninos precisam jogar bola. Meninas precisam ter uma caligrafia perfeita. O esporte que praticamos, a forma como escrevemos não devem definir nossa orientação sexual ou identidade de gênero.
Quando João percebeu um sentimento até então visto como diferente por seu amigo na escola, ele se questionou o que estava acontecendo, porque não sabia explicar a sensação, era o amor que tinha surgido, mas que ele sabia que era errado. Porque aprendemos desde que nascemos que meninos precisam gostar de meninas, e vice versa, a sociedade nos impõe uma relação binária, os exemplos são sempre constituídos por essa norma sexista. Questiona-se das namoradinhas para os meninos, impossibilitando encontrar pessoas para se apaixonar, independente de gênero ou orientação sexual. Desta forma, pensamos quando vamos conversar com alguém sobre relacionamento, devemos sempre pensar que aquele sujeito está se relacionando com uma pessoa, não impondo o outro uma sexualidade. Além disso, devemos lembrar que crianças estão se descobrindo, se conhecendo, desta forma, permeando as diversas possibilidades de prazeres e amores.
Enquanto isso em relação aos seus pais, mesmo sendo agressores, também são vítimas de uma construção social, como sua mãe que encontra na religião justificativa para seus comportamentos. Apesar de não ser mencionada na história sua religião, ressaltamos a ascensão do cristianismo que foi de grande relevância para a história da homossexualidade enquanto preconceito, visto que a partir desse contexto histórico que a medicina definiu a homossexualidade enquanto doença.
Desde então, muitos utilizam a doutrina religiosa para argumentar seus pensamentos sobre a homossexualidade, rotulando enquanto pecado as práticas homoeróticas. Se pensarmos na bíblia, por exemplo, consta em Levítico “com homem não te deitarás, como se fosse mulher, abominação é;” (BÍBLIA, Levítico, 18, 22), no entanto, o mesmo livro relata sobre ser proibido comer carne de porco, “porque tem unhas fendidas, e as fenda das unhas se divide em duas, mas não rumina, este vos será imundo” (BÍBLIA, Levítico, 11, 7). Contudo sabemos que a carne suína é consumida mundialmente.
Logo, nota-se que os argumentos não são plausíveis, pois, diverge com os comportamentos de diversos cristão, desta forma, verificamos que utilizar passagens bíblicas para justificar comportamentos preconceitos não se torna possível, porque apenas utilizam aquilo que convém diante das suas próprias convicções e pensamentos sobre uma sexualidade distinta da norma vigente em sociedade.
A respeito de seu pai, o mesmo encontra no álcool uma forma de mecanismo de defesa para questionamentos que não surgiram na história, mas, sabe-se que os vícios são uma forma de compensação para muitas vezes suprir sua falta de estrutura psíquica adequada.
Além disso, o personagem vivência o patriarcado, baseado no contexto da potencialidade da figura paterna construída socialmente que perpetuasse, é necessário também utilizar-se da visão viriarcal no qual sujeito deve manter comportamentos viris perante a família e demais membros do seu convívio social. Destacando também sua visão machista expressa através de suas atitudes hostis e um discurso sexista que define seus comportamentos dentre o masculino e o feminino, proibindo João de vivenciar suas potencialidades sexuais e descobertas.
Ademais analisamos também que João desenvolve diversos transtornos mentais devido suas vivências, baixo autoestima por não se ver pertencente a um padrão etnocêntrico, e também eurocêntrico, afinal, a bicha preta e gorda não se enquadra no padrão de beleza imposto socialmente.
E João acreditando que se encontraria no meio de outras pessoas LGBTQIAP+ se decepciona ao perceber que muitos da comunidade também são vítimas dos estereótipos e repetem um discurso preconceituoso baseado no binarismo, no machismo, e em uma homofobia internalizada.
Ele infelizmente não conseguiu ser mais um no meio da multidão, continuava sendo analisado através de rótulos que não o definia, mas era imposto. Assim ressaltamos a passividade, na história João era chamado de “bicha passiva”, compreendemos que a passividade surge na relação do processo construtivo do machismo, pois, avaliamos que em uma relação sexual o passivo é visto como a mulher da relação, reafirmando a inferioridade do feminino.
Seus comportamentos continuaram sendo julgados dentro da comunidade LGBTQIAP+, porém, sabemos que de alguma forma todos pertencentes a esse grupo sofre algum tipo de preconceito, ninguém está impune, entretanto, muitos se tornam sujeitos agressivos, ora como projeção, ora como proteção.
Realmente não compreendemos a vivência de cada um, contudo, sabemos que a comunidade também é enraizada de preconceitos, seja o racismo, gordofobia, o sujeito afeminado. Há também a necessidade de ser “bicha padrão” de reproduzir uma norma cis-heternormativa.
Neste processo todo João se torna um ansioso, um depressivo, e incompreendido pela sociedade. Quantos não passarão e passam por situações parecidas com o personagem. E além de tudo, qual está sendo o nosso papel em todas essas vivências. Até que ponto somos vítimas, mas, também em que momentos somos os agressores. Compreende-se aqui todas as formas possíveis de agressão, muitas vezes uma palavra machuca mais que um soco. Um olhar diz muito. A falta de empatia está fazendo com que milhares de pessoas busquem o mesmo fim que o personagem.
A população LGBTQIAP+ possui cinco vezes mais chances de suicídio comparado aos heterossexuais cisgêneros de acordo a revista Galileu (2015) referente à pesquisa realizada pela Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, além disso, pode aumentar até 20 vezes mais dependendo do ambiente que o sujeito esteja inserido.
Seja esse ambiente familiar, escolar e no âmbito do trabalho. João além de ter uma sexualidade desviante da norma, há também outros agentes que desencadearam o suicídio, como sua pele e o seu peso.
Por mais que todos nós sejamos vítimas de um sistema opressor, cabe a nós avaliar nossos comportamentos e de que maneira estamos auxiliando nesse processo de adoecimento do outro, e o quão responsável somos por isso. Apesar de não nascermos preconceituosos, nos tornamos a partir das nossas vivências, e é nosso dever desconstruir esses comportamentos, para que possamos compreender que a diversidade existente em nossa sociedade nos torna singular.
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Fernando Veiga
Colunista - Coluna Gozo
Psicólogo e Sexólogo, especialista em Sexualidade Humana com ênfase em terapia e educação. Orienta seus estudos e trabalhos para as temáticas LGBTQIA+. Atua na área clínica com abordagem psicanalítica em atendimentos presencial e online. Psicólogo Social na Assistência Social do Município de Nova Fátima – PR. Trabalha com palestras direcionadas as vertentes da psicologia e sexualidade humana.
As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional do Coletivo Movimento Construção – Parada LGBTI+ de Londrina.
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