
Comemoramos no Brasil no dia 25 de março o dia nacional do orgulho LGBTQIAP+, a data surge para fortalecer os debates a respeito dos direitos da comunidade e sua luta por igualdade, além de abordar os preconceitos vivenciados por aqueles que não se enquadram na norma padrão da sociedade referente à orientação sexual e identidade de gênero.
O movimento se iniciou com a Rebelião de Stonewall, que ocorreu na noite de 28 de junho de 1969 em Nova York. O dia ficou marcado pela invasão de policiais no local, e os frequentadores homossexuais resolveram entrar em confronto com a repressão e humilhação. Atualmente comemoramos nessa data o Dia Internacional do Orgulho LGBTQIAP+.
Ambas as datas são de grande relevância para a comunidade LGBTQIAP+ por reforçar a necessidade de fomentar a temática, visto que apesar de muitos avanços e conquistas, ainda são alvos de diversos ataques por buscarem vivenciar com plenitude sua sexualidade.
Vivemos em uma sociedade cis-heternormativa, desta forma, qualquer outra expressão de sexualidade é vista como desviante do padrão imposto, podemos até ampliar esse parâmetro, ao perceber que, além disso, há também diversos estereótipos que contribuem com essa visão.
Ainda para nossa sociedade, todos nascem cisgênero e heterossexual, afinal, antes mesmo de nascermos já existimos, pois recebemos um nome que define nosso gênero de acordo com o nosso sexo biológico, ademais, idealizam para nós comportamentos e sonhos que ainda não podemos ter consciência.
“Menino veste azul, e menina veste rosa”, não foi isso que ouvimos da Damares Alves, Ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos do nosso país?! O discurso é reforçado com os eventos que ocorrem antes mesmo do nosso nascimento, como o chá de revelação, muito presente na atualidade, e que define as cores para os meninos e meninas. Quem nunca viu pais falando do seu mundo azul, ou seu mundo rosa de acordo com o sexo do bebê?!
Crescemos acreditando que somos cisgênero e heterossexual, afinal somos criados para isso, os meninos devem brincar com carrinhos, enquanto isso, as meninas devem ter apenas bonecas. Há brincadeiras de meninos, e também tem as brincadeiras de meninas. Meninos não brincam com meninas. E meninas não podem brincar com os meninos.
Ouvimos também diversos comentários sobre as namoradinhas dos meninos, e a repressão dos comportamentos das meninas, afinal, é proibido sentar de pernas aperta, porque menina tem que se comportar como mocinha, né?!
Os anos vão se passando, e as coisas não vão mudando, ainda é preciso se enquadrar dentro do que a sociedade impõe, caso contrário, seremos alvos de agressão física, verbal e psicológica. Na escola, se menino só tem amigas, é o viadinho, a bichinha. Já a menina que gosta de futebol, é Maria moleque, ou sapatão. Como se a forma que expressamos nossos gostos define-se que somos.
Quando percebemos que realmente não encaixamos na idealização da sociedade, o mundo para, a angustia surge, o desespero aparece e nos sufoca. O menino que se apaixona pelo amigo. A menina que sente atração pela vizinha. Percebemos que tem algo de errado. Mas por que é errado amar o outro? É porque para a sociedade não nascemos para isso, não podemos vivenciar esse desejo. Ainda é necessário casar, ter filhos, conseguir um emprego e construir uma família, daquelas que vemos nos comercias de margarina, ou na novela em horário nobre. É preciso ser mais uma família tradicional brasileira!
Descobrimos nossa sexualidade de diversas formas, alguns ocultam, outros se libertam, mas todos buscam gozar do seu desejo de amar, de vivenciar seus prazeres. Ouvimos muito sobre como percebemos nossa orientação sexual, ou identidade de gênero, ouvimos também questionamentos de quando nos assumimos, quando saímos do armário.
E tudo isso sempre é um processo, doloroso ou não, mas inevitável, é necessário enterrar aquele ser que foi construído pelo outro, e começar a ser que somos de verdade. E para isso, precisamos passar pelo luto, como os cinco estágios do luto, apresentado pela psiquiatra suíço-americana, Kubler Ross, que nos diz que é preciso enfrentar a negação, raiva, barganha, depressão e aceitação.
Primeiro negamos nosso desejo, temos raiva de descobrir quem somos, barganhamos nossos impulsos, entramos em um processo depressivo por não compreender que não podemos ser o que o outro deseja, e por fim, aceitamos o nosso verdadeiro eu, e percebemos que devemos nos orgulhar de podermos gozar dos prazeres da vida.
Muitos questionam quando nos assumimos, mas ninguém pergunta para o heterossexual e cisgênero o momento que ele abordou sua família falando da sua sexualidade. Ninguém o interroga sobre quando ele percebeu que gostava do sexo oposto. Além disso, não há pesquisas que buscam compreender a heterossexualidade, enquanto isso surge inúmeras teorias em diversas áreas, sobre as orientações sexuais e identidades de gênero que são vistas como desviantes da norma. Afinal, a homossexualidade já foi vista pela medicina como doença, e a transgeneridade segue como disforia de gênero no 5º Manual Diagnóstico de Transtornos Mentais.
Infelizmente ainda vivemos em um mundo preconceituoso, e os dados estatísticos comprovam essa realidade, de acordo com relatórios de 2019 do Grupo Gay da Bahia (GGB) a cada 23 horas, morre um LGBTQIAP+ no Brasil, e seguimos liderando o ranking do país que mais mata essa população no mundo.
Dados que reforçam a necessidade de debatermos o tema não apenas em um dia, ou outro, mas a todo instante, pela busca da igualdade, e dos nossos direitos de viver os nossos desejos e sonhos. Não podemos deixar que a sociedade continue impondo o que devemos ser, e como devemos nos comportar.
Meninos e meninas podem ser o que quiser, da forma que desejarem, e como acharem melhor. Podemos ser um arco-íris, como bem representado pela bandeira com as cores do movimento que continua lutando para que possamos amar e ser amado.
Orgulhe-se de quem você é, precisamos nos orgulhar de quem somos, porque enquanto existir o preconceito, precisamos ser resistência contra um sistema excludente que nos causa dor, nos causa morte. Juntos somos mais fortes!
Confira abaixo 12 curiosidades sobre o tema desenvolvido pela Ui Gafas!


Fernando Veiga
Colunista - Coluna Gozo
Psicólogo e Sexólogo, especialista em Sexualidade Humana com ênfase em terapia e educação. Orienta seus estudos e trabalhos para as temáticas LGBTQIA+. Atua na área clínica com abordagem psicanalítica em atendimentos presencial e online. Psicólogo Social na Assistência Social do Município de Nova Fátima – PR. Trabalha com palestras direcionadas as vertentes da psicologia e sexualidade humana.
As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional do Coletivo Movimento Construção – Parada LGBTI+ de Londrina.
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