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Anualmente no Brasil comemoramos no segundo domingo do mês de maio, o dia das mães, a celebração surgiu nos Estados Unidos em 1905, quando Anna Jarvis e algumas amigas iniciaram um movimento para instaurar um dia que as crianças pudessem homenagear suas mães. Além disso, o capitalismo colabora nessa construção, com o ritual de presentear as mães como forma de homenagem, inclusive no país é o período de maior venda nos comércios.
A figura materna sempre esteve relacionada com sentimentos de afeto, e assim temos uma visão positiva do papel de mãe em nossa sociedade, enraizado em uma cultura que define sua função na relação com sua prole.
No entanto, infelizmente vemos que nem todas as mães possuem essas características de afeição por seus filhos, principalmente se ele não for cisgênero e heterossexual. Ou seja, sujeitos pertencentes à comunidade LGBTQIAP+ muitas vezes são vítimas de homofobia dentro de suas próprias casas por não corresponder os desejos do outro, afinal, compreendemos que a sociedade impõe uma cis-heternormatividade como regra.
Muitas mães não compreendem a diversidade sexual, enquanto algumas se apoiam nas religiões para justificar sua reprovação da sexualidade de seu filho, vendo seus desejos e vivências como pecado, como errado. Outras acreditam que só é possível amor entre os sexos opostos.
Desta forma, mães acabam rompendo o vínculo com seus filhos, por não aceitarem sua orientação sexual, ou identidade de gênero. Às vezes se questionando aonde erraram em sua educação, e até mesmo buscando ajuda profissional por acreditarem ser uma doença, passível de cura. E assim muitos LGBTQIAP+ são expulsos de casa, passando por dificuldades, alguns vão para prostituição, outros viram moradores de rua, e encontram fuga nas drogas, e enfrentam diversas vulnerabilidades. Essa realidade os afastam das escolas, do trabalho e do meio social.
Alguns sujeitos vistos pela sociedade como desviante da norma, preferem ocultar seus desejos e impulsos, vivendo uma vida dentro dos padrões, outros preferem sair de casa o mais cedo possível para vivenciar de forma plena sua sexualidade. O discurso de uma mãe que aceita o vizinho, o sobrinho nem sempre se aplica da mesma forma quando ocorre dentro de casa. É aquela velha história, tudo bem ser LGBTQIAP+, mas, desde que não seja meu filho.
A falta de aceitação daquela que deveria amar incondicionalmente, gera inúmeras angustias e transtornos mentais naqueles que buscavam o afeto não encontrado no seio materno. Uns desenvolvem transtornos de ansiedade, baixa autoestima, e depressão. Enquanto isso, há aqueles que não suportam tamanho sofrimento e encontram na morte uma saída para cessar toda sua dor.
De acordo com uma pesquisada realizada em 2012 pela Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, os homossexuais estão mais propensos ao suicídio. Foram entrevistados 32 mil jovens, com idade entre 13 e 17 anos, concluindo que possuem cinco vezes mais chances de tentar o suicídio em relação aos heterossexuais.
Além disso, o ambiente que o sujeito está inserido influência nesse processo, pois, uma melhor aceitação de sua orientação sexual, reduz em 25% a possibilidade de cometer suicídio, mostrando a importância do individuo não viver em um ambiente opressor.
Em relação ao Brasil, uma pesquisa desenvolvida pelo instituto de ciência médica da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), demonstrou que o país está em décimo lugar, em relação à taxa de suicídio cometido por homossexuais. Ainda de acordo com os dados, 67% dos entrevistados alegaram sentir vergonha de sua orientação sexual, 35% apresentaram sintomas de depressão, e 10% com ideação suicida.
Os números são alarmantes, e nos mostram a triste realidade da população LGBTQIAP+ que vivem em um mundo de preconceito, principalmente no âmbito familiar. Desta forma, percebemos a importância de uma família estruturada que compreenda a sexualidade de forma ampla e fluída, para que seja possível amenizar os sentimentos de rejeição que enfrenta na sociedade diariamente.
Desta forma, apesar dos relatos preconceituosos de diversas mães, temos aquelas que não se importam com a forma de amor daqueles que colocaram no mundo, alegando que o importante é a felicidade e o bem estar de seus filhos, e que o amor prevalece.
E assim surgem inúmeros movimentos e grupos de mães e pais que apoiam seus filhos e lutam contra o preconceito, como o caso do grupo Mães pela Diversidade, que apesar do nome, não é composto apenas por mães, mas por toda uma família que apoiam as diversas possibilidades de orientação sexual e identidade de gênero.
O grupo já existe há anos em várias cidades brasileiras, e há 5 anos participa da maior parada LGBTQIAP+ do mundo, que é realizada anualmente na cidade de São Paulo. É nítido observar durante o evento diversos cartazes de apoio para a comunidade, como “meu filho não será estatística”, “nossos filhos tem direito de amar quem quiserem e constituir família” mensagens que transmitem amor e respeito.
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Em 2018 a Organização das Nações Unidas (ONU) entrevistou duas integrantes do movimento, com o intuito de explicar os objetivos do grupo, e qual é seu papel perante uma sociedade preconceituosa, e como podemos auxiliar nesse processo de desconstrução desse padrão excludente. Você pode conferir a matéria na integra aqui!
O objetivo das considerações aqui levantadas não é julgar aquela que nos colocou no mundo, que nos gerou por meses, e por anos nos educou, nos deu amor, e ensinou um pouco da vida. Porque sabemos da sociedade em que vivemos, e que se pensarmos em nossas genitoras, suas vivências são limitadas dentro de um processo binário e sexista.
Ademais, é compreensível a falta de informação sobre esse tema, levando a ignorância em possibilidades de vivência da sexualidade. Nossas mães são mulheres criadas para casar com um homem, ter filhos e assim constituir uma família cis-heternormativa. Não podemos culpa-las por não ser aquilo que idealizamos de figura materna, nossa projeção no outro nos limita por não percebemos que somos todos humanos, passíveis de erros, mas, possíveis de descontrução.
E talvez esse seja nosso papel nesse processo, aqui não digo de aceitar o que elas são, pensam e agem, mas sim, de dar a oportunidade de mostrar que o nosso amor é puro e sincero, independente de orientação sexual e gênero. Dar a possibilidade delas nos amarem como somos – imperfeitos – como todos são, é levar conhecimento para elas que viveram por anos em bolhas, e que também projetou em nós seus desejos inconscientes arreigado em um pensamento normativo.
Talvez não seja uma data comemorativa para muitos da comunidade LGBTQIAP+, alguns perderam o contato com a mãe, foram expulsos de casa, apanharam, sofreram e hoje recordam das mágoas daquela que deveria ser sinônimo de amor. Porém, há aqueles também que irão abraçar suas mães por serem aceitos de forma sublime e com a pureza de um amor, independente de qualquer diferença existente. Pois, o amor prevalece. É ele que nos rege. É o porto seguro de um colo que nos protege contra uma sociedade opressora.
Independente do rumo que a sua história o levou, das dificuldades que enfrentaram, das lágrimas que não cessaram e da alegria que transbordaram, há sempre alguém que te ama, e não precisa ser representado por uma figura, por um arquétipo, apenas necessita ser verdadeiro e lhe mostrar o significado de um amor incondicional.
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Fernando Veiga
Colunista - Coluna Gozo
Psicólogo e Sexólogo, especialista em Sexualidade Humana com ênfase em terapia e educação. Orienta seus estudos e trabalhos para as temáticas LGBTQIA+. Atua na área clínica com abordagem psicanalítica em atendimentos presencial e online. Psicólogo Social na Assistência Social do Município de Nova Fátima – PR. Trabalha com palestras direcionadas as vertentes da psicologia e sexualidade humana.
As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional do Coletivo Movimento Construção – Parada LGBTI+ de Londrina.
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